AJP motos portuguesas

AJP: AS MOTOS PORTUGUESAS QUE SE AVENTURAM PELO MUNDO

São motas, senhores, são motas! E não andam a esconder as suas raízes, embora alguns possam desconhecer que a AJP é uma marca made in Portugal, uma vez que exporta 90% da produção para países cada vez mais fiéis à sua performance de enduro, todo-o-terreno e aventura.


Quando a produção portuguesa de pequenas motorizadas como a Casal e a Famel Zundapp começou a entrar em declínio, nasceu em Penafiel uma empresa que queria rumar contra a maré. Tinha como objetivo criar motos mais sofisticadas e começou por fazê-lo sem correr demasiados riscos, optando por confiar em fornecedores já estabelecidos na praça. Mas o ADN da aventura estava lá: a AJP persistiu, avançou para a conceção própria de mais componentes, insistiu, foi aumentando a cilindrada a cada novo modelo, investiu, conquistou mercados com o desempenho fiável de cada unidade vendida e, em suma, conseguiu. Hoje é a única fabricante portuguesa de motos, comercializa vários modelos diferentes num leque de cilindradas que vai dos 125 aos 600 centímetros cúbicos (cc) e, se é verdade que conquista clientes eco-smart nos grandes centros urbanos onde as duas rodas ajudam a contornar o trânsito e a cortar na gasolina e no CO2, indiscutível é que convence muito mais em rocky roads, trails, montanhas, desertos e qualquer outro terreno agreste em que a adrenalina possa beneficiar de um desempenho de enduro fiável, resistente, leve e à prova de lama, areias, choques e outras mazelas também.

As máquinas que permitem sobreviver a essa experiência todo-terreno fabricam-se numa unidade industrial de Lousada, com 1500 metros quadrados e 25 funcionários, todos eles incentivados a testarem as motos da casa em contexto real. Mas o grande mentor do projeto é António Pinto, que só descobriu o universo da moto-mecânica aos 22 anos, mas hoje, aos 53, se sente tão confortável no seu duplo papel de piloto e fabricante que até dá entrevistas quando está com gripe e ainda com um pé partido devido a “uma parede estúpida que se meteu à frente” da sua AJP. “Já são muitos anos disto, mas, quando é por gosto, a gente nunca se cansa”, justifica.

30 anos a acelerar

A história da AJP tem início em 1987, quando António Pinto registou em Penafiel a empresa com que se propunha conceber motos mais arrojadas do que as então existentes no mercado da produção nacional, recorrendo para isso a peças de fabricantes ainda ativos no país – como a emblemática Metalurgia Casal, que viria a encerrar em 2000. O fundador da AJP admite que, na época, a sua empresa ainda não tinha know-how suficiente para assegurar a produção integral dos modelos de 125 cc aí concebidos, mas reconhece também que, enquanto outros fabricantes caminhavam para a insolvência, a AJP se empenhou em fazer precisamente o percurso inverso, rumo a uma maior especialização em enduro. Foi por esse motivo que a maioria das peças utilizada pela marca passou a certa altura a ser produzida internamente, na fábrica de Lousada, e foi também para garantir um maior controlo de qualidade na produção que mesmo os componentes encomendados ao exterior, como os motores asiáticos, ficaram sujeitos à obrigatoriedade de serem adaptados aos requisitos técnicos da casa antes de aplicados em qualquer viatura AJP.

Nessa evolução, sucederam-se vários modelos de motos, cilindradas cada vez mais potentes, participações em provas de motociclismo, pódios de campeonato, aventuras mediáticas em desertos e savanas, e até edições especiais dedicadas à banda Xutos & Pontapés. Fiabilidade e resistência passaram a ser epítetos da marca, mas estética também, como atestou a curadoria da própria bienal Experimenta Design ao integrar a AJP PR5 numa exposição que reunia casos de sucesso da indústria portuguesa e revelava ao público como as formas desse modelo específico influíam no desempenho de um motor de 250 cc.

Este será o primeiro ano de comercialização plena da recém-lançada PR7 650

Embora em diferentes contextos e circunstâncias, todas essas conquistas terão contribuído para que, em 30 anos de marca, a AJP tenha passado de uma capacidade de produção anual de cerca de 100 motos para médias mais próximas das 3000 unidades. A expectativa da empresa é que esse ritmo de distribuição possa acentuar-se ainda mais em 2017, uma vez que este será o primeiro ano de comercialização plena da recém-lançada PR7 650, que tem um novo motor de injeção eletrónica de 600 cc e é descrita por António Pinto como “uma mota mais madura, mais potente, para o utilizador que já tem alguma experiência e sabe o que quer”.

“Nunca se fez em Portugal uma moto com esta cilindrada”, realça o empresário, orgulhoso, agora que vê completo um processo de desenvolvimento de produto que se prolongou por dois anos e implicou um exigente programa de testes. “Ela está a ser apresentada na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, e também vai chegar em breve ao Canadá e à Indonésia, onde estamos a ultimar a legalização necessária para poder vender nesses países”, acrescenta.

A principal vantagem da AJP face à concorrência já era a sua relação qualidade-preço, dado que outras marcas de enduro “cobram muito mais por um produto que não é melhor”, mas António Pinto está ainda mais confiante agora: “A PR7 vai revolucionar o mercado e pôr-nos a competir noutro patamar”.

AJP motos portuguesas

Os modelos da AJP têm como características distintivas o braço oscilante fundido numa só peça e o depósito de combustível situado na traseira da moto.

Concorrer entre os melhores

A internacionalização da AJP arrancou em 2004 e o esforço financeiro necessário para o efeito – nomeadamente com a prospeção de distribuidores e a presença em feiras do setor e provas da especialidade – já demonstrou ter valido a pena: atualmente, a empresa de Penafiel está presente em cerca de 30 países, exporta 90% da sua produção e tem como principais mercados a Austrália, os Estados Unidos, a Polónia e a República Checa.

A oferta que gera todo esse negócio inclui diferentes versões de quatro motos distintas, todas com duas características que se tornaram imagem de marca da empresa: “o braço oscilante em alumínio fundido numa só peça e o depósito de combustível situado atrás, debaixo do banco”. Esses traços comuns adaptam-se depois aos objetivos da marca para cada um dos seguintes modelos: a moto PR3, mais pequena, disponível com motores de 125 ou 240 cc para motociclistas de estatura mais baixa; a PR4, “irmã mais alta da PR3” e best-seller da AJP na versão de 240 cc; a PR5, com 250 cc focados em enduro e “muito direcionada para quem faz viagens longas e grandes trekkings”; e a PR7 650, “uma moto trail já em estilo rally, mais de aventura”. A versão mais modesta será o que António Pinto considera “muito barata”, por custar cerca de 2.750 euros, enquanto a PR7 já terá um preço na ordem dos 10.500. Mas, de um extremo ao outro do catálogo, “qualquer AJP é mota para durar 15 a 20 anos quando bem estimada – se o dono a souber conduzir em condições, sem lhe meter paredes pela frente, como fazem alguns”.

Se 2016 ficou fechado com um volume de negócios na ordem dos 2,5 milhões de euros, a ambição do empresário é agora continuar a escalada de afirmação internacional da marca, no que aponta sempre como essencial a parceria com “bons distribuidores, que saibam demonstrar ao cliente o potencial das motos e tenham condições para lhe proporcionar um test drive”. Porque o fundador da AJP garante: “Basta isso para a pessoa perceber logo a máquina que tem nas mãos”.


Publicado na INSOMNIA Magazine #4.

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