CÉSAR MOURÃO: TRAPÉZIO SEM REDE

Na vida, tal como nos palcos, na rádio e na televisão, o talentoso ator e humorista deixa-se levar sem qualquer deixa premeditada.


Ele é uma espécie de rapper ou MC dos tempos modernos, porque traz consigo, fechado a aloquete no coração, aquela poesia que se inventa de repente e que provoca na pulsação um aceleramento dos batimentos cardíacos. Debaixo da sua língua vivem ruas de palavras, anagramas de letras cocofónicas e remédios santos para o riso. O que César Mourão liberta e partilha não tem preço, é solto e tão fácil de usar, tal como o são as pequenas coisas, que na sua simplicidade e normalidade têm o condão de levantar o astral. O próprio humorista, ator e intérprete escolhe o quotidiano como inspiração para as personagens que interpreta e que ganham vida em palco, num trabalho árduo dos músculos faciais e de todo o seu mundo interior. Porque, para ele, “o público gosta do que é verdadeiro e sem truques na manga”.

Q&A

INSOMNIA Magazine: Quem é o César Mourão?
César Mourão: Eu sou uma pessoa tímida, para variar. Já parece um clichê os atores dizerem que são tímidos. Mas é rigorosamente verdade. Eu sou uma pessoa tímida, preocupada com o que o rodeia, com a família e os amigos. Essa é realmente a minha estrutura, a minha base. Eu sou muito perfecionista na minha profissão, mas gosto de pensar que tudo tem o seu tempo. Não vivo com o objetivo a, b ou c, ou com o sonho a, b ou c. Portanto vivo a cada dia; e tem sido a vida que me tem dado coisas e eu não tenho seguido atrás de nenhum sonho.

César Mourão | Ana Dias

IM: Como é que foste parar ao mundo do espetáculo e da comédia? Não me digas que eras uma criança acanhada e que esta foi uma das formas de contornares isso?
CM: Talvez seja, mas sem querer. Se foi, não foi propositado. Eu inscrevi-me num grupo de teatro amador, porque eu era tímido, mas ao mesmo tempo, quando me soltava, era um palhacinho. Eu fui fazendo teatro amador e todos os meus encenadores, aqueles que se cruzaram no meu percurso, diziam-me “segue, segue, segue”. Eu ia fazer desporto, ia estudar Formação Técnica de Desporto e, sim, acabei por estudar. No entanto, eu não estava para aí virado. Na verdade, as várias opiniões dos meus encenadores pesaram na minha ida para o Chapitô. Formei-me, depois fui para o Brasil e, lá, estudei Teatro, Cinema e Televisão. Mais tarde, quando regressei a Portugal, integrei o elenco dos Commedia a la Carte e faço-o até hoje; mas não era esse o meu objetivo.

IM: Os Commedia a la Carte existem há mais de 15 anos. Qual é o segredo para o sucesso e para a duração deste projeto?
CM: O segredo? Eu penso que acaba por ser o mesmo que está por detrás do meu novo programa na SIC, o D’Improviso. O improviso é muito arriscado e pode correr mal. E as pessoas, especialmente os portugueses, adoram saber que pode realmente correr mal. E é verdade; é como fazer trapézio sem rede. As pessoas adoram saber que há um perigo de “espera aí, mas se esta pessoa cair, parte-se todo? Sim? Então deixa-me lá ver se ele não cai”. E as pessoas ficam a ver se eu realmente caio ou se não caio. E eu vou prendendo as pessoas assim. E há um dia em que eu me arrisco mesmo a cair. E não é possível não cair quando se faz trapézio sem rede. Já cai muitas vezes, mas ainda só me magoei.

IM: Tens medo de bloquear em cena? Ou de fazer uma piada que tens a certeza que é genial e não haver qualquer reação da parte do público? Como é que lidas com isso?
CM: Já me aconteceu milhares de vezes. Não lido mal por uma razão: eu prefiro, muitas vezes, e especialmente em televisão e rádio, que corra mal, porque é sinal que testemunhas que aquilo é verdade. Se corre tudo muito bem eu tenho sempre medo que as pessoas em casa pensem: “ah, isto está feito, aquilo está combinado”. Então eu não me importo que corra mal em televisão. Essas falhas fidelizam o público, porque, nesse caso, ele vai pensar: “Afinal, isto pode correr mal. Espera aí que eu não vou sair daqui, porque isto é mesmo verdade”. O público gosta do que é verdadeiro e sem truques na manga. E isto é verdadeiro. O programa não tem cortes. É o que é. Se tem piada tem, se não tem não tem. E é a vida.

Não é possível não cair quando se faz trapézio sem rede.

IM: E a ti, o que é que te faz rir?
CM: Eu gosto de muita coisa, mas não me rio de muita coisa. Quase nada me faz rir. Eu tenho muita dificuldade em rir-me. Atualmente, eu digo sempre isto, mas é a mais pura das verdades, quem me faz rir é a minha filha. É ela quem me faz rir de coração. Tem um timing incrível. Rio-me também do quotidiano, daquilo que não tem piada, basicamente. Eu rio-me de uma senhora a pedir um chá e meia torrada. Eu rio-me de uma senhora a dizer ao senhor Augusto que já é a segunda vez que ele lhe dá uma torrada com muita manteiga, mas ela pede com pouca. A normalidade das situações dá-me imensa vontade de rir.

IM: Quais são as tuas maiores inspirações?
CM: Eu vou confessar algo que pode parecer parvo. Obviamente que eu tenho as minhas inspirações. Quando era criança admirava o Herman José e cheguei, felizmente, a trabalhar com ele. Era um sonho trabalhar com o Herman nessa altura. Os Monty Phyton – a esses é impossível fugir. Hoje em dia acompanho o trabalho de Ricky Gervais. No entanto, as minhas verdadeiras inspirações são as pessoas comuns. Por exemplo, há um empregado de mesa que me fez interpretar algumas personagens, um senhor que é conhecido por nunca acabar as frases que diz. E esse senhor não sonha a importância que teve nalgumas das minhas personagens. Também as senhoras das Avenidas Novas, que pedem um chá e torradas, são uma inspiração diária fortíssima. Os meus amigos. O Carlos Cunha, que trabalha comigo, é uma inspiração muito forte para mim, porque ele tem ensinamentos fantásticos, talvez por ser mais velho do que eu. Eu até faço questão de não ver muito humor, uma vez que, sem querer, isso acaba por ter uma certa influência em mim. Isto porque, na improvisação, nós estamos a trabalhar apenas com aquilo que temos dentro de nós. E, subitamente, pela velocidade, pela rapidez, com que tenho de dizer uma piada posso ter de dizer, infelizmente, uma piada de alguém. Aí, é claro que fico triste. No meu caso, eu não acho que seja bom ver humor. Vejo algum, mas afasto-me. Eu procuro ser o mais autêntico possível. Mas claro que eu também me inspiro aqui e ali, sem querer.

IM: Qual foi até hoje o maior papel da tua vida?
CM: O papel da minha vida é, claramente, ser pai. Dá-me uma consciência do mundo, de mim próprio e de atuação completamente diferentes. Agora, papel de palco, penso que foi a minha “Esperança”, um monólogo que eu escrevi com o Frederico Pombares, por ser da minha autoria. Foi dos papéis que eu mais gostei de interpretar.

IM: Fala-nos um pouco do teu novo projeto profissional na SIC, o programa ‘D’Improviso’.
CM: É um programa muito transversal e familiar, de domingo à noite. É um formato que vive da possibilidade de correr mal. É incrível que eu esteja a conseguir levar convidados que me honra muito ter no programa, desde músicos, a apresentadores, a atores, a pivots de informação, que, normalmente, não fazem nada deste género, nem brincam com humor. Deu-me um gozo incrível poder tirá-los da sua zona de conforto, para poderem ter um momento de improvisação. Espero que o país olhe para estas pessoas como almas corajosas, porque não é nada fácil “brincar” a algo que não dominam e que não fazem todos os dias. Todas as pessoas aceitaram participar e fizeram-no muitíssimo bem. É um programa que a cada segundo pode correr mal e eu acho que vai prender os espetadores, em grande medida, por essa razão. Além disso, o D’Improviso é composto por vários formatos de improvisação, nos quais eu não tenho conhecimento de nada do que vai acontecer e o público também não. Todos temos de improvisar.

IM: Há pouco falavas da tua passagem pelo Chapitô, que te permitiu aprender a fazer ilusionismo e malabarismo…
CM: Malabarismo, na verdade, eu aprendi a fazer sozinho. Tinham livros na biblioteca e eu pegava neles, só para ficar a ler.

IM: … mas já fizeste muitos malabarismos com a vida?
CM: Já. Todos os dias. Eu penso que todos nós o fazemos. Há muitas coisas que nos correm de uma maneira oposta àquilo que estávamos a pensar e nós temos de ter essa audácia de por várias coisas no ar, mas controlá-las. Isso é a nossa vida. Nós sabemos que temos o trabalho, a família, os amigos; e que todos nós temos dificuldades monetárias. Subitamente pode surgir-nos um problema com o qual não estávamos a contar. Isso são malabarismos. Portanto, eu encaro o malabarismo da vida, como encaro o malabarismo enquanto forma de entretenimento. Eu sei os mínimos e eu faço os mínimos; agora o segredo é fazer com que o truque mais simples do mundo pareça incrível. É aquilo que eu faço com a vida.

IM: Se não fosses humorista e ator, qual teria sido o teu guião? E o teu palco?
CM: Eu penso que teria sido músico. Eu gosto imenso de cantar e de tocar instrumentos. Eu não sou um músico, porque não me dediquei a nenhum instrumento. Mas eu teria sido certamente músico/instrumentista/autor. O meu percurso passaria certamente pela música, sempre.


Fotos: Ana Dias

Publicado na INSOMNIA Magazine #5.

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