Padel

PADEL: O DESPORTO DESCONHECIDO PRATICADO POR MILHARES

Por cá, escreve-se “padel”; nos Estados Unidos e Canadá “paddle“; e os britânicos ainda se lhe referem como “paddle-tennis“. Em qualquer dos casos, este é o desporto de raquetes que nasceu em alto mar, começou por ser um privilégio das classes sociais mais altas e ao fim de poucos anos tem já milhares de praticantes em Portugal. Em Espanha, é mesmo a segunda modalidade do país, superando com os seus 4,5 milhões de praticantes o universo do ténis que lhe serviu de inspiração. Principal appeal do jogo? «Ser fácil e ter vida social», diz quem sabe.


Imagine-se um navio de passageiros em alto mar, por volta de 1890, quando se cruzavam oceanos em longas travessias, sem telemóveis ou televisão que ajudassem a passar o tempo. Uma boa partida de ténis faria maravilhas para desentorpecer corpo e mente, mas a ondulação marítima e a robustez do vento não facilitavam a tarefa. A força dos elementos aguçou, contudo, o engenho dos mais saudosos, que improvisaram nos navios os courts de ténis possíveis, criando campos de jogo com menores dimensões e envolvendo-os em tela para minimizar as perturbações ambientais impostas pelo contexto marítimo. Trinta e quatro anos depois, o padel de alto mar ancorava em terra, quando o norte-americano Frank Beal criou alguns courts amadores nos parques de Nova Iorque. A procura pelo jogo acentuou-se e em 1969 o mexicano Enrique Corcuera construía num hotel de Acapulco aquele que é apontado como o primeiro campo de padel sujeito a regulamento – de acordo com as regras que o próprio definiu na altura e que ainda hoje regem a modalidade a nível mundial. Da nova leva de convertidos passou também a constar o príncipe espanhol Afonso de Hohenlohe-Langenburg, que disseminou o padel pela Europa e teve um papel determinante na sua difusão, contribuindo para o crescimento de uma modalidade que, segundo a respetiva federação canadiana, contará hoje com cinco milhões de praticantes em 20 países.

Características do jogo: disputa-se a pares, com bolas e raquetes semelhantes às do ténis, num campo com 10 metros de largura por 20 de comprimento. Dividido por uma rede, o court pode apresentar-se em piso de relva sintética, alcatifa ou betão poroso, sendo que, nos topos e em parte das laterais, exibe paredes em vidro ou alvenaria, onde as bolas ressaltam sem interromperem a partida, à semelhança do que acontece com o squash. A pontuação, por sua vez, é idêntica à do ténis, vencendo cada partida a equipa que marcar mais sets.

Há quase 15.000 praticantes de padel em território português

Quanto a equipamento, não há exigências específicas de vestuário, mas um kit de três bolas de padel custará uns 5 euros, enquanto o leque de preços das raquetes é mais variado, oscilando entre os 20 e os 400. No orçamento final para prática da modalidade há ainda que considerar o aluguer do campo de treino, que, na generalidade dos complexos desportivos próprios para o efeito, custará de 10 a 30 euros por hora, consoante a sua localização, as condições do espaço, o horário requisitado e a aquisição do serviço a título pontual ou em pack mensal.

Em Portugal, o jogo ter-se-á implantado na década de 1990, quando a empresa espanhola All Rocket criou em Lisboa o primeiro centro de treino de padel. A modalidade não motivou, contudo, a adesão nacional pretendida, pelo que a utilização do centro ficou praticamente reduzida à procura por parte dos espanhóis residentes na capital e o jogo só registaria novo impulso com a abertura, já na viragem para o século XXI, de novos complexos desportivos no Algarve. Seguem-se infraestruturas no Estoril, Porto, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Leiria e diversas localidades do Alentejo, Açores e Madeira, após o que a modalidade regista uma disseminação discreta, mas consistente por todo o país. Daí resulta que hoje as estimativas oficiais apontem para quase 15.000 praticantes de padel em território português, num universo em que a taxa de crescimento se prevê de 50% ao ano no futuro mais próximo.

Segundo alguns desses atletas, aquela que definem como “a tutela da modalidade” reparte-se agora por duas entidades: a Federação Portuguesa de Ténis, ativa desde 1925, e a Federação Portuguesa de Padel, constituída em 2012. “Tudo o que envolve a seleção nacional é tratado pela Federação de Ténis, por exemplo, enquanto o Top 20 é gerido pela de Padel”, sintetiza João Bastos, 4.º no ranking nacional do jogo criado em alto mar. “Mas isto não tem jeito nenhum e o que os jogadores querem é que passe tudo para a Federação de Padel, que é a única que tem feito alguma coisa pela modalidade”.

Mas quem é que manda, afinal?

Contactadas pela INSOMNIA as duas autodenominadas federações, a de Padel começa por situar o universo de praticantes da modalidade como mais próximo dos 20.000 atletas. Tiago Rodriguez Santos, da direção desse organismo, realça, aliás, que, desde 2012, esse “já filiou mais de 2.500 praticantes, mais de 100 treinadores e mais de 40 clubes”, assumindo um papel determinante no boom da modalidade. “Com a fundação da Federação Portuguesa de Padel, este desporto acabou por ter pela primeira vez uma entidade organizada a dedicar-se-lhe exclusivamente”, explica. “Como é normal no trabalho de qualquer federação, começámos por formar treinadores e árbitros, e depois criámos um circuito bastante competitivo”.

As atenções da Federação de Padel concentram-se agora nos mais jovens, “que são o futuro da modalidade” e deverão beneficiar da mais vasta experiência formativa já acumulada em Espanha. “Felizmente, temos a sorte de manter muito boas relações institucionais com a maioria das federações autónomas espanholas, com as quais temos aprendido muito e trabalhado diversas vezes”, admite Tiago Rodriguez Santos. “Atualmente, 80% do World Padel Tour é jogado em Espanha e é lá que está toda a indústria deste desporto, assim como as marcas, treinadores e jogadores de referência”. O objetivo é assim alargar parcerias e reforçar a aprendizagem proporcionada pelas boas práticas do país vizinho, até porque “Portugal contará com uma prova [do circuito mundial] em 2016 e talvez outra em 2017”.

Court Padel

Com uma alta taxa de retenção de first timers, o padel vem atraindo cada vez mais praticantes por permitir uma rápida evolução mesmo aos iniciantes e ser sempre jogado a pares, o que estimula o convívio social.

Independentemente desse calendário, as expectativas da Federação de Padel são otimistas. “Podemo-nos orgulhar do nosso circuito, o KIA Padel Tour, que conta com 37 provas, inclui sete com prémios monetários e passa por 90% dos nossos clubes filiados, de Norte a Sul do país”, afirma Tiago Rodriguez Santos. “Esperamos fazer crescer para mais do dobro o número de praticantes em Portugal, aumentar o número de espaços onde se pode jogar padel e criar competição em todos os quadrantes da modalidade”.

Outra aposta anunciada é a de “tentar trazer mais torneios internacionais a Portugal”, até porque o programa dedicado aos atletas da elite nacional da modalidade tem demonstrado que esses beneficiam do contacto com referências de outros países. “Contamos muitas vezes com atletas do Top 50 do World Padel Tour em algumas das nossas provas, o que torna o jogo mais atrativo para quem o vê e também para os atletas que têm o prazer de jogar contra os melhores do mundo”, garante Tiago Rodriguez Santos.

A tutela repartida entre as designadas federações de Ténis e de Padel pode, contudo, revelar-se contraproducente para a modalidade. “Só prejudica e não é boa para ninguém que goste de padel”, defende esse responsável. “À exceção de Itália e França, o padel é autónomo em todo o mundo e é descabido alguém pensar nele como uma ‘disciplina’ do ténis, quando estes dois desportos são tutelados por duas federações internacionais diferentes”.

Já para o presidente da Federação Portuguesa de Ténis, Vasco Santos, a questão da dupla tutela não mereceu comentários porque nem sequer existe. “A única entidade que tutela o padel em Portugal é a Federação Portuguesa de Ténis”, assegura. “Inclusivamente, ao abrigo do Decreto-Lei 45/2015, a ‘Federação Portuguesa de Padel’ já não poderá usar a designação de ‘federação'”.

Vasco Santos defende que o que conta são os resultados desportivos e refere que, em território português, esses expressam-se na organização de provas como o Circuito Nacional da modalidade, o Campeonato Nacional absoluto e o Campeonato Nacional de Veteranos. Quanto ao trabalho de coordenação das seleções portuguesas, realça os recentes méritos da prestação lusa no contexto internacional: “A Seleção Nacional Feminina classificou-se em 3.º lugar no Campeonato do Mundo em 2014 e foi campeã da Europa em 2015. A Seleção Masculina ficou em 11.º no Campeonato do Mundo de 2014 e foi 4.ª no Campeonato da Europa de 2015”.

Com base nesse palmarés, as principais metas da Federação de Ténis a curto prazo são duas: “melhorar os resultados alcançados” e, em paralelo, fomentar a modalidade “nas camadas jovens, para o padel se desenvolver ainda mais, como já começa a acontecer em vários clubes”.

Elevada taxa de estreantes convertidos

Miguel Santos é sócio-gerente do centro desportivo Top Padel, que diz ter sido “o primeiro do Porto totalmente dedicado à modalidade”, e confirma que o jogo atrai praticantes “dos 5 aos 80 anos”, embora registe nas suas instalações uma “maior prevalência na faixa dos 25 aos 50”. Adivinhava essa procura quando em 2013 inaugurou o primeiro complexo da marca, na zona do Fluvial; confirmou-a um ano depois quando o crescimento do negócio já ditava a abertura de uma segunda unidade, na Zona Industrial; e continua a comprová-la no terceiro ano de existência do complexo, que, até final de 2016, deverá expandir-se para um terceiro espaço na Quinta do Fojo, em Gaia. “O padel tem progredido bem porque apresenta uma taxa de retensão de first timers acima da média”, justifica. “As pessoas vêm experimentar a primeira vez e ficam facilmente convencidas”.

Da base de dados do clube constam assim “quase 4.000 praticantes” e, entre esses, Miguel Santos afirma que 75% serão homens, embora a tendência seja “para se diminuir rapidamente a diferença entre sexos, o que já acontece em Lisboa, onde há clubes com 50% de cada”. Já a nível socioeconómico, o empresário reconhece que a modalidade continua a ser mais procurada “pela classe média-alta”, mas, também nesse contexto, defende que as diferenças se vêm gradualmente esbatendo. “Uma hora de treino particular no campo de jogo individual pode custar 35 euros, por exemplo, mas no formato mais barato uma hora por semana já só custa 56 euros por mês, o que dá uns 11 a 14 euros por sessão e é muito mais acessível”, avalia.

Pedro Mesquita concorda que a modalidade “já não é um desporto de elites como era há uns anos”. Descobriu o padel em 2010, quando se dedicava apenas ao surf e o desafiaram a experimentar as raquetes, e facilmente se rendeu à simplicidade do jogo e ao ambiente convivial que proporciona. “Isto é muito fácil de jogar e permite uma progressão rápida, o que significa que mesmo quem se está a iniciar agora acaba por avançar depressa e num instante está a fazer boas pontuações”, explica. “Além disso, como o jogo é a pares, socialmente também é mais interessante, porque conseguimos organizar treinos com os amigos de forma muito simples e isto acaba por ser sempre muito animado”.

Com João Bastos (o referido 4.º atleta do ranking nacional e “mais ou menos 150.º do ranking mundial”), todos esses fatores tiveram influência na sua fidelização ao padel, mas também surtiu efeito o espírito particularmente competitivo que marca a fase de afirmação de uma modalidade desportiva nova. “Como a progressão é rápida, ao fim de algum tempo pode-se começar a competir a sério e uma das vantagens é que, mesmo quando se está a representar um clube, cada um joga por si”, observa. Esse ritmo de evolução será, aliás, uma das razões pelas quais o jogador argumenta que, em Portugal, “o ténis estagnou e, daqui a três anos, o padel vai estar a ultrapassá-lo”.

Menos fácil será superar a prestação do país vizinho, considerando que mesmo os atletas portugueses com 10 anos de modalidade “continuam a não estar ao nível dos jogadores de Espanha, onde o padel se joga há muito mais tempo e está muito mais desenvolvido”. João Bastos esforça-se, contudo, por esbater essa diferença, dedicando três treinos semanais a preparação física de alta competição e quatro à disputa efetiva de jogos. “Acho que já ninguém nos consegue parar”, antevê. “Somos cada vez mais e estamos cada vez melhores, portanto daqui a uns tempos também estamos no topo mundial. É nisso que temos que pensar”.


Publicado na INSOMNIA Magazine #3.

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