Gin Portugal

A REGINERAÇÃO

Por cá o remédio parece ter sido descoberto tarde, mas há umas décadas largas já o estadista britânico Winston Churchill dizia: “Gin e água tónica salvaram aos Ingleses mais vidas – e mais mentes – do que todos os médicos do Império”. Perante fórmula tão longamente comprovada, não há, então, o que contrariar: o gin veio para ficar e, no momento de decidir entre diferentes marcas, a inovação das nacionais vem conquistando terreno.


Dizem que a febre já acalmou, que a moda passou, que acabaram as filas loucas à sua espera. Os supermercados deixaram de montar aquelas ilhas no meio dos corredores só com garrafas e frasquinhos de aromáticas; a secção das louças também já não exibe na primeira fila tantos copos de balão. Aleluia! Já era tempo! O conceito de seleção natural entre as espécies também se impôs na classe do gin e, agora que terminou a correria para experimentar todas as marcas que existem, em todas as combinações possíveis, o que se impôs na cadeia (pós-)alimentar foi o elemento mais forte: o gin puro, do bom, sem o frenesim dos adereços de tempero, para quem realmente sabe apreciá-lo, só porque sim e não porque o dita a moda.

Após a evolução que estabilizou o mercado, as marcas passaram a afirmar-se pelos seus travos distintivos e o consumidor demonstra mais fidelidade para com os gins que melhor lhe sabem – ao paladar e à identidade. É no equilíbrio entre esses dois valores, aliás, que vem crescendo a produção nacional de gin, no que as marcas portuguesas podem diferenciar-se entre si por terem nascido de mera carolice pessoal ou já na sequência de projetos comerciais consolidados, mas em comum têm sempre uma certa ligação às raízes da alma lusa, seja pela inclusão de uma espécie botânica autóctone no processo de fabrico, seja por uma imagem de autenticidade made in Portugal – o que sempre desperta a curiosidade do mercado interno, já que, pelo menos no que se refere a copos, não há emblema ou rótulo que nos divida o patriotismo.

Se há poucos anos as marcas nacionais de gin se contavam por apenas uma mão, agora a lista já é mais extensa, pelo que se impõe a justiça de enumerá-la enquanto ainda cabe em algumas linhas: são nossos, portanto, os gins Friends, Friday Chic, Sharish, Wild Snow Dog, Mui Gin, Nao, Adamus, Amicis, Neighbours 21, Gotik, Montês, Opivm, Cobalto 17, Gin Tinto, Azor, Big Boss, Pukka Gin, Real Gin, Bica Gin, Gold Grail, Origin All, Valey Gin e Lisbon Hock Gin. (Se nos esquecemos de alguma, sorry pelo lapso, mas há bom remédio: com uma garrafa ou duas aqui na INSOMNIA, nunca mais se repete a falha).

A próxima rodada

Passada a loucura inicial da descoberta, atualmente poderá beber-se menos gin em Portugal, mas seguramente beber-se-á melhor. “O mercado parece ter chegado ao estado de maturação em que as vendas deixam de crescer para todos os players e passam a ser conquistadas entre os que existem”, avalia Luís Sousa Botelho, diretor comercial da empresa Essência do Vinho, que é líder nacional na produção de eventos enogastronómicos, detém a “Revista de Vinhos” e organiza anualmente o “Gin Tasting”, entre várias outras iniciativas de referência no setor. “Como está cada vez mais difícil para qualquer marca ter um impacto que ultrapasse o mercado local, isso leva os produtores a fazerem esforços extra para se diferenciarem e em Portugal temos assistido ao surgimento de variadíssimas marcas novas que colocam a grande tónica do seu lançamento numa qualquer especificação diferenciadora, como o método de destilação, o uso de um botânico em particular ou outro qualquer fator”.

A tendência é para produtos com melhor qualidade e diferenciação, naturalmente mais caros

Dados precisos sobre as vendas globais de gin português em 2017 (ainda) não há, mas Luís Sousa Botelho acredita que os resultados desse segmento vão refletir as mesmas tendências da região de Inglaterra, no Reino Unido. “No primeiro semestre do ano as vendas [da generalidade das marcas] cresceram quer em quantidade, quer em valor, o que comprova a tendência do mercado para a procura de produtos com melhor qualidade e diferenciação, naturalmente mais caros”, explica. Portugal ficará certamente muito aquém do volume de negócios inglês, que só nesse semestre rondou os 566 milhões de euros, mas, segundo o diretor comercial da Essência do Vinho, os dados disponíveis apontam para uma realidade algo semelhante: “Embora a um ritmo menos acelerado que o verificado em Inglaterra ou em terras lusas há alguns meses atrás, as vendas ainda se encontram em trajetória ascendente”.

Desta conjuntura resultam oportunidades e também uma ameaça particularmente gritante por derivar de uma reinterpretação da própria matriz do gin. A razão para otimismo é que o abrandamento das vendas ou a retração do mercado pode representar “uma tendência natural para a afirmação das pequenas produções, muito centradas no seu local de fabrico e na procura de novos aromas e autenticidade”. Dito de outra forma: a calmaria pode resultar em gins mais cuidados e diferenciados, como o consumidor agradece. Já a perspetiva menos positiva é que há o risco – significativo porque já constatado – de os produtores negligenciarem a infusão de zimbro como elemento sine qua non do gin. “Sabemos que esse aroma não se encontra em muitas das novas referências que chegam ao mercado”, admite Luís Sousa Botelho. “Assim, deve ser feita uma distinção entre os gins que mantêm o zimbro como aroma principal ou inequivocamente presente e os gins cujo zimbro não é percetível. No fundo, isso significa que todos os pseudo-gins que se afastam da matriz essencial devem ser considerados pura e simplesmente vodkas aromatizadas – sem qualquer cariz pejorativo”.

A culpa é dos amigos

Vodka era o que Luís Ferreira e os amigos não queriam. É certo que compravam muitas garrafas dessa bebida para os seus fins-de-semana em Estremoz, mas despejavam-nas todas num alambique artesanal, onde esperavam que a destilação produzisse efeito e, após alguns preparos, se viam perante um gin caseiro capaz de regar com dignidade o pós-jantar de qualquer serão. Um dia esses amigos disseram-lhe que devia produzir para vender, foram repetindo o recado e lá chegou a hora em que a insistência surtiu efeito e o engenheiro agrónomo se fez sócio de Tiago Cabaço para, com a experiência desse na produção de vinhos, juntos lançarem então um gin novo, da terra. Chama-se Friends, em homenagem a quem os desafiou e se entregou sem medo a quatro anos de testes e provas com “438 espécies botânicas e mais de 1.000 macerações e microdestilações”; tem o epíteto Premium por ser de requinte artesanal e ter “um travo distintivo que se identifica de olhos fechados sem olhar para a garrafa”; e na designação refere ainda a Touriga Nacional por ser essa a casta das uvas-passas com que vai a estagiar dois meses em barricas de carvalho francês.

Em Portugal, a aposta é agora no recuperar da simplicidade

“Está a ser uma aventura”, confessa Luís Ferreira. “Tivemos que reestruturar todo o edifício em que trabalhamos e passámos um ano a tratar de burocracias e questões de alfândega, mas em setembro de 2015 lançámos então o Friends Premium Touriga Nacional, que está a ser bem aceite tanto pelos nossos clientes nacionais como pelos de exportação”. No final de 2016, entre essa edição e a do Premium Dry que lhe sucedeu, a Portuguese Distillery & Friends já tinha vendido 20.000 garrafas e metade delas rumara para países como o Luxemburgo, Bélgica, Reino Unido, Suíça, Angola e Austrália. Com os seus 37 botânicos e travo de uva-passa, o Touriga Nacional continua, no entanto, a ser o Friends mais consumido da casa. “É um gin floral e frutado, que consegue brilhar só com duas pedras de gelo e uma boa água tónica. O que é bom não precisa de adereços”, garante Luís Ferreira, em tom de humor, mas com convicção.

O espírito do lugar servido líquido

Percurso de vida mais curto tem o recém-lançado Ventozelo Premium Dry, que chegou ao mercado no passado mês de novembro e marca a estreia no segmento da homónima quinta duriense detida pelo grupo francês Gran Cruz. “A nossa ambição é o Ventozelo Premium Dry ser reconhecido como o primeiro gin de uma quinta no segmento mais alto da classe, com a forte personalidade devida ao seu terroir”, afirma Jorge Dias, diretor-geral da Gran Cruz. “Trata-se de um produto de nicho vocacionado sobretudo para os apreciadores de propostas distintas e reflete muito bem as características aromáticas do bosque, dos pomares e da horta de Ventozelo, apresentando um perfil vínico acentuado que é fruto do álcool utilizado na sua produção”. Parte do segredo, aliás, está precisamente aí: a maceração das oito espécies botânicas aplicadas no Ventozelo faz-se em álcool proveniente da destilação de vinhos da própria quinta e é também com a aguardente que deles resulta que se faz a lotação envolvida no processo de fabrico.

Complexidades técnicas à parte, o facto é que o Ventozelo nasceu de saberes partilhados: não apenas os da própria quinta enquanto experiente produtora de vinhos, mas também os do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, ao nível da investigação em bioquímica, e os da empresa Cantinho das Aromáticas, que identificou os melhores botânicos da propriedade e “ajudou a guardá-los em cada garrafa”.

Revelando nesse perfil a tradição de destilação das grandes quintas do Douro e a riqueza aromática da vegetação mediterrânica do local onde é produzido, o Ventozelo Premium Dry Gin contará menos de dois meses de idade até ao final de 2017, mas por essa altura já se terá convertido em 5.000 garrafas, 40% das quais destinadas ao mercado externo, em especial França, Dinamarca e Suíça. No próximo ano viajará ainda mais, mas, onde quer que o encontrem, Jorge Dias deixa já a recomendação: “Dada a sua riqueza aromática, o perfect serving é ao natural”.

O novo ciclo da moda

Para o diretor-geral da Gran Cruz, o boom da fase de descoberta do gin poderá já ter passado, mas a moda “veio claramente para ficar”, na medida em que a bebida com laivos de zimbro “tem mantido uma procura assinalável, estando mesmo a contagiar outras categorias de produtos que começam a seguir essa tendência, quer nos espirituosos, quer nos vinhos”.

Já Luís Ferreira, da Portuguese Distillery & Friends, defende que a febre exploratória do gin vem demonstrando ser itinerante, como acontece com todas as grandes tendências mundiais, e se propagará agora a outras paragens. “Aquele pico da maluqueira inicial, como se via há dois ou três anos, já passou e isso não é necessariamente mau”, recorda. “Pôs fim a um tipo de procura quase desesperada, em que uns nem gostavam de gin e queriam beber só para se mostrarem atualizados, enquanto outros queriam um festival ao estilo ‘salada de fruta’, com bagas de zimbro, cardamomo, pepino e tudo o mais que conseguissem experimentar”. Contudo, como em tudo o mais na economia atual, também com o gin há diferenças ditadas pela geografia: “Em Espanha, na Bélgica e no Luxemburgo, por exemplo, ainda estão a começar a descobrir o gin. No Brasil e em Angola também ainda estão no início da ‘salada de fruta’”. Já em Portugal, uma vez formado o público, informado o consumidor, estabilizado o mercado, a aposta é agora no recuperar da simplicidade. Ou como diz Luís Ferreira: “Aqui, agora, o que deve brilhar é o gin sozinho, por si só”.


Publicado na INSOMNIA Magazine #5.

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