Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

A RUA DO PEDRO SALGADO É MAIOR QUE A TUA

Pobres daqueles cuja rua se caminha só pelo chão. Para Pedro Salgado, as ruas percorrem-se pelo asfalto e pela calçada, pelas paredes e pelos muros, por telhados e varandas, por árvores e baloiços. Usa tanto os pés como as mãos, fá-lo de forma mais linda, mais cheia de graça – é ele o homem que corre, que salta e que passa, no doce balanço do parkour com que inspira jovens de todo o mundo. (Para ler com ou sem Tom Jobim em fundo, claro!)


Às vezes caminhar é uma chatice. Então ir em filinha sem poder cortar caminho, a chamar nomes baixinho aos caramelos que empatam o ritmo dos outros, arruína os nervos de qualquer um! Era tão mais fácil ser-se um Homem Aranha que trepa pela parede acima e chega num ápice ao topo do edifício – ou então uma Cat Woman equilibrista que vai de um telhado a outro pelo estendal do 4.º andar, sem ter que descer à rua para voltar a subir ao outro prédio! Ok: ando a ver muitos filmes? É verdade. Mas um deles é precisamente um pequeno vídeo do YouTube em que um rapaz sem fatos de lycra nem capas esvoaçantes percorre uma série de circuitos pela baixa de Lisboa usando tanto os pés como as mãos: é com elas que salta corrimões e corta mais rápido vários lanços de escada, é com elas que se apoia em paredes ao saltar muros altos, é com elas que se pendura em qualquer estrutura metálica que lhe proporcione balanço para chegar mais rápido e mais a direito ao ponto seguinte do seu caminho. O protagonista desse filme chama-se Pedro Salgado e aos 26 anos é já uma referência internacional do parkour – esse formato de deslocação peculiar que é utilizado para se chegar de um ponto geográfico a outro pelo meio corporal mais rápido e mais eficiente possível.

Sinto-me bastante livre para fazer com o meu corpo tudo o que quiser

O conceito surgiu nos anos 80 por iniciativa do francês Raymond Belle, tem por base a expressão parcours du combattant (que significa percurso do combatente) e envolve uma disciplina de treino inspirada em práticas militares de superação de obstáculos. Também conhecido como free running (embora em rigor esse estilo apresente subtis variações), o parkour implica assim que o seu praticante – o chamado traceur, à francesa, ou tracer, à britânica – recorra a todas as aptidões exclusivas do seu corpo para chegar mais rápido ao seu destino: correr, escalar, balouçar, saltar, rolar e tudo o que mais se proporcione para concretização do seu objetivo. Desse leque de manobras resulta um estilo de mobilidade único que, entre o céu e a terra, entre a arquitetura e a natureza, não é de todo indissociável da estética que caracteriza as melhores (e algo irrealistas) produções cinematográficas sobre artes marciais. A diferença é que o parkour faz-se sem fios de suspensão escondidos no décor e só acontece em cenários reais. Normais, nem tanto, mas reais, sempre.

“É que a minha vida não é normal”, diz Pedro Salgado impulsivamente, quando lhe perguntam que perspetiva visual tem sobre a cidade ao fazer parkour, comparativamente à do mero caminhante, de movimentos sempre rentes ao chão. “Sinto-me bastante livre para fazer com o meu corpo tudo o que quiser e os movimentos que faço dão-me ângulos de visão completamente diferentes dos da maioria das pessoas”.

Rebolar na areia

Pedro Salgado iniciou-se no parkour há uns 10 anos, mas nos seus genes já antes havia a tendência para comportamentos arrojados. O pai era praticante de cliff diving, em que os saltos para o mar se fazem a partir de altos penhascos, e contagiou-o com o fascínio pela adrenalina e aventura. “Comecei a fazer saltos para a água, depois tentei fazer mortais na areia e a certa altura uma colega minha disse que eu devia conhecer um amigo dela. Era o Ruben ‘Trox’ e ele é que me mostrou o que era o parkour”, recorda o atual traceur. O que se seguiu foi então o bê-á-bá da modalidade: “Primeiro aprendem-se as técnicas mais básicas e depois, à medida que ganhamos à-vontade e passamos a explorar melhor o ambiente que nos rodeia, vamos aplicando a nossa criatividade e estilo pessoal às opções que fazemos. Quanto mais fluidos são os nossos gestos, mais criativos conseguimos ser”.

Essa originalidade reflete-se na sola de quaisquer sapatilhas que tenham sido bem usadas por um traceur. “Agora já posso mudar os meus ténis com frequência, mas antes eles eram gastos até à última e a sola ficava num estado totalmente diferente da dos sapatos de uma pessoa normal, porque o uso que lhe damos também é totalmente diferente – nós não andamos só a direito; andamos inclinados com a sola a gastar-se de lado, raspamos os pés na parede para abrandar descidas, rodamos sobre barras de ferro para balouçar, damos saltos de grandes alturas em que os pés têm muito mais que amortecer”, explica Pedro.

As mãos sofrem ainda mais. Tocam em tudo, agarram-se ao que podem, penduram-se onde dá jeito com o peso de um corpo inteiro atrás. Estão calejadas, mas querem-se assim e dispensam cremes hidrantes e semelhantes delicadezas. “Eu não uso nada disso”, garante o traceur. “Preciso delas robustas para me agarrar bem – podem salvar-me a vida”.

Parkour all over

Numa evolução gradual e consistente, o parkour de Pedro Salgado foi assim adquirindo calo e também palmarés competitivo, passando da Amadora a outras cidades do país, a grandes capitais da Europa e a até a cenários de sonho como a cordilheira do Grand Canyon nos Estados Unidos. Diferenciando-se por manobras que fazem lembrar coreografias urbanas, o jovem foi vencendo prémios em diversas provas nacionais e estrangeiras, chamou a atenção de entidades oficiais ligadas à modalidade e agora acumula viagens a convite de promotores de diferentes eventos e projetos.

Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

Um salto captado em ângulo contrapicado na cidade de Haia, na Holanda.

Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

É o próprio Pedro Salgado que define a legenda desta foto: “A voar com os pombos em Bolonha, Itália!”.

Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

Pedro Salgado já esteve no Grand Canyon, nos Estados Unidos, mas nem por isso aprecia menos as formações rochosas da praia de Benagil, no Algarve. “Sem medo”, contudo, só ao fim de algum tempo, porque a iniciação no parkour começa por dominar uma série de técnicas básicas antes de se evoluir para as mais arriscadas.

Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

Team work. Pedro Salgado defende que a evolução no parkour também passa pela partilha de experiências com colegas, sejam eles os tracers de Lisboa, os colegas da Holanda ou outros concorrentes de provas internacionais.

“Competir contradiz um pouco a filosofia do parkour, que foi pensado sobretudo como uma técnica pessoal”, admite Pedro, já quatro vezes classificado como o melhor do mundo pela sua velocidade ou estilo em eventos da modalidade como o Parcouring World Championship, o KRAP Parkour Challenge, o Vigo Street Stunts e o Hop the Block. “Mas o certo é que, além de ajudar à promoção do parkour, a competição nos permite aprender com outros praticantes e também nos faz ganhar visibilidade – porque, quando há uma prova destas, toda a comunidade internacional está a ver”.

Essa exposição atrai patrocinadores e apoiantes, e foi assim que o traceur lisboeta acabou por se envolver em diferentes projetos desportivos e empresariais: viveu na Holanda a convite da Jump Freerun Academy, desenhou a estrutura de dois dos ginásios dessa cadeia, concebeu um outro para a Noruega e agora é o embaixador da recém-criada marca norte-americana Peter Parkour, com a qual desenvolve programas de treino e vestuário da modalidade. Na sua página pessoal de Facebook Pedro tinha no final de março mais de 35.000 likes; na sua conta de Instagram mais de 51.000 seguidores. As contas associadas à sua carreira de fotógrafo ainda acrescentam a essa audiência mais alguns milhares de fãs, estimulando o seu trabalho em áreas como a moda, o retrato e, claro, o desporto.

“Estou feliz, cheguei ao meu objetivo e faço aquilo de que gosto”, reconhece. “Antes, pedia à minha mãe 10 euros para ir treinar a algum sítio com os meus amigos e, se ela não os tinha para me dar, a solução era ficar em casa e praticar por perto. Mas agora isso acabou. Viver do parkour já não é problema”, declara, soltando uma gargalhada tranquila.

Grato pelo muito que já conheceu do mundo graças à modalidade, Pedro só espera poder continuar a superar as espectativas e a acumular no passaporte o carimbo de mais países, de preferência também na Ásia. Apreciaria a mudança de cenário e deixa já o aviso: “Quero ir à Muralha da China. É um dos sítios onde pretendo fazer uns saltos”.

Pedro Salgado Parkour | INSOMNIA Magazine

Pedro Salgado a sobrevoar pilares de madeira na Holanda, onde desenhou dois ginásios da cadeia Jump Freerun Academy.


Publicado na INSOMNIA Magazine #4.

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