SAMUEL ÚRIA SÓ SABE CRESCER

Fomos sorrateiramente espreitar a caixinha de surpresas que é o músico e compositor Samuel Úria.


Não precisamos de lhe dar corda, porque todo ele se espraia em palavras que almejamos recitar de cor. Samuel Úria é tão mais grandioso que os seus mundos interiores. Abreviá-lo ou remendá-lo é uma tarefa impensável. Ele é “largo de ossos” e a sua “carga de ombros” é daquelas que nos atinge com um ímpeto vulcânico; não nos atira ao chão – antes pelo contrário, eleva-nos ao infinito e leva-nos a ver a vida através dos seus olhos. Fiquem a conhecer o subtil génio do rock nacional.

Q&A

INSOMNIA Magazine: Quem é Samuel Úria?
Samuel Úria: Felizmente não sei responder a essa pergunta, caso contrário o Samuel Úria podia ser mais maçador do que é na realidade. Mas não conseguir descrever-me tem as suas vantagens: como faço poucos balanços à minha existência, todas as indagações e considerações acabam por brotar quando quero escrever uma canção. A minha preguiça introspectiva acaba por tornar-se na minha inspiração mais fresca.

Samuel Úria | Entrevista | INSOMNIA Magazine

IM: Como é que ele era em bruto?
SU: Era pouco polido no invólucro. Era rude de aparência, desleixado na sonoridade. Era ruidoso e massacrante. Era feio por fora, para que pudessem suspeitar de alguma beleza interior. Nós, os feios, somos alvo desse bom preconceito, porque suspeita-se sempre que temos algum interesse escondido.

IM: Fala-nos da tua infância na Beira Alta.
SU: A minha Beira Alta da infância fingia-se remota para o que lhe convinha, e mostrava-se próxima quando solicitada. Cresci rodeado de ar puro, espaços largos e tempo. Também cresci num sítio que nunca se deixou isolar, e que soube estar ligado ao mundo – com o que tinha para oferecer, não com o que sabia importar e imitar.

IM: Tondela tem lugar cativo no teu coração. Sentes que ela é uma presença constante nas tuas obras?
SU: Sim, completamente. Tondela ainda tem o tempo ideal para se compor uma canção. Não uso relógio, mas mesmo a viver em Lisboa, tenho de me sentir num fuso horário tondelense quando quero escrever músicas.

IM: Consideras-te um homem religioso? De que forma transpões isso para a tua carreira?
SU: Já não sei muito bem o que é ser um homem religioso. Considero-me um homem de fé. Acredito que não devo viver em função de mim próprio, e isso não pode ser um mero pormenor da minha existência, tem de ser aquele que mais me define. A transposição para a carreira acaba por ser óbvia: não consigo deixar de cantar sobre aquilo que mais me define.

IM: Sabes que a crítica diz que fizeste renascer o rock and roll nacional. Como encaras esta distinção?
SU: Tenho de encarar a distinção com orgulho, mas também possuo a humildade suficiente para saber que sou uma pequena peça desse renascimento. O meu papel está intimamente ligado a uma geração inteira de músicos que revitalizaram alguns aspectos da música nacional.

IM: Com as canções que crias, pretendes evadir-te de algum lugar?
SU: Acho que é o contrário. As minhas canções põe-me de uma forma muito mais definitiva e consciente nos sítios em que estou. Pode haver uma evasão linguística, até porque os recursos poéticos e estilísticos que uso são, de facto, libertadores. Mas creio que uso o máximo de liberdades artísticas para me recentrar nas pequenas e necessárias prisões da existência.

Um lenço enxuto é mau, é sinal de que andamos sequinhos.

IM: Onde vais beber inspiração para criares os teus álbuns?
SU: Há um grande cruzamento dos meus interesses na concepção dos álbuns. As referências assentam sobre aquilo que me move, e tanto escrevo coisas pejadas de citações bíblicas e literárias, como resgato expressões corriqueiras, como ainda tento empenhar-me numa geometria que me faça esquecer que sou um artista plástico frustrado. E há muito cinema, quer nas menções directas (algumas musicais), quer numa das lições mais importantes que os filmes me ensinam: serem uma arte visual que sabe esconder coisas da vista; gostava que a minha música fosse assim. Sei que isto parece um bocado pretensioso, mas é honestidade dum geek provinciano, não é por qualquer pedantismo. Já que nem sempre sou transparente no produto, tento ser transparente na determinação.

IM: Como começou o movimento FlorCaveira?
SU: A FlorCaveira começou com um grupo de amigos que estavam em idade clássica de ser interventivos, e isto num período de ainda grande espanto e euforia com o alcance da internet. Iniciou com um manifesto, depois com textos e, finalmente, abocanhou os discos que alguns de nós já íamos fazendo.

IM: Como é que surgiu o convite para colaborares com a Sapo 24?
SU: Eu só conheço a parte da história em que aceitei uma proposta que me chegou por email. Percebi que ia ter liberdade, até para ser maçador, intrincado ou impopular, por isso não hesitei em dar o meu sim.

IM: O que mais te aflige no teu Pequeno Mundo?
SU: Aflige-me uma visão agigantada de nós próprios.

IM: A quem é que já deste uma Carga de Ombro?
SU: Gosto de futebol, mas jogo muito mal, por isso as minhas cargas de ombro não são as desportivas. Já dei uma carga de ombro à minha mulher, e ela a mim, quando decidimos que quatro ombros deviam aguentar cargas mútuas, como se fossem só um par de ombros num corpo comum.

IM: Já escreveste letras para a Ana Moura, para o António Zambujo, para os Clã e para a Kátia Guerreiro. Qual foi a composição mais desafiante?
SU: Para a Ana e para o António fiz também as músicas, por isso foi um trabalho de raiz que não diferiu assim tanto do que faço para mim, mesmo com outras vozes em mente (raramente componho com a minha voz em mente). Para a Kátia, foi desafiante, mas também foi bastante tranquilizador trabalhar para um fado de formato muito fechado. Às vezes, termos pouca margem de manobra facilita o processo criativo, pois ao sabermos os limites também sabemos onde concentrar as partes mais inventivas. Com os Clã, numa das canções (“Canção de Água Doce”) a própria música parecia estar a ditar-me a letra, e a voz da Manuela já trazia as minhas palavras, mesmo quando ela não as dizia. Noutra das canções dos Clã, por me soar mais completa e preenchida, surgiram incertezas, até porque cheguei a sentir que estava a puxá-la para baixo com as minhas intervenções. Terá sido esta última a mais desafiante, mas gosto do meu contributo final.

IM: Tens algum álbum na manga?
SU: Tenho um calendário a lembrar-me que é altura de pensar nisso.

IM: Auto-descondecoraste-te entre 2009 e 2010. Em que momento te apercebeste que não precisavas de um trono ou de um título no panorama musical português?
SU: Sempre me apercebi disso, mas achei que precisava de afirmá-lo, até porque começava a ser demasiado bem tratado em alguns meios. “A Descondecoração” é um disco sobejamente desconhecido, e nisso ele cumpre o seu papel. É o mais estranho de todos os meus trabalhos (numa altura em que se elogiava alguma da minha estranheza) mas também antecede os meus discos mais pop de estúdio. Sou eu a oferecer uma luva branca para me poderem dar uma estalada, sobretudo aqueles que nunca entenderam o rumo que a minha carreira tomou desde aí.

IM: O que precisa de diminuir em ti para que algo possa engrandecer?
SU: Tudo. Tudo o que eu sou. Tudo o que escreva com um “eu” lá pelo meio. Tudo o que me faça ter razão, mas não me faça estar certo.

IM: Que sujidade limparias do mundo com o teu Pano Enxuto?
SU: Logo a minha, a começar. Um lenço enxuto é mau, é sinal de que andamos sequinhos.

IM: Se tivesses de reinventar o amor, o que lhe oferecerias de novo? Farias com que fosse um compromisso para a vida inteira?
SU: Na minha concepção o amor já é para a vida inteira. O único verdadeiro teste para o amor é a sua perenidade. Vou ser polémico e confuso: o amor quando acaba não deixou de existir, deixou foi de ter alguma vez existido; desintegrou-se na história, porque não se reduz o amar ao recordar. Uma declaração de amor devia ser uma declaração de futuro, não um embevecimento do momento. Sei que isto parece muito idealista, mas haverá melhor coisa para votarmos os nossos idealismos do que ao amor?

IM: Se não fosses músico, quais seriam os teus outros interesses?
SU: Gostaria muito de me ter aprimorado mais na ilustração. Perdi esse comboio, mas jamais cederei ao desinteresse.


Fotos: Ana Dias

Publicado na INSOMNIA Magazine #4.

Partilhar na rede