Volvo Ocean Race 2017-2018 | INSOMNIA Magazine

VOLVO OCEAN RACE 2017-2018: DESPOJAMENTO, PERÍCIA E CARÁTER – MAR ADENTRO, UMA VOLTA AO MUNDO

“Regata” é termo que faz lembrar coisa para meninos. Tem uma sonoridade próxima de passeata, evoca pedaladas no lago numa gaivota pacata. Mas a culpa é apenas da tradução, que em coisas de mar não deixa que race se converta em corrida. Desengane-se, portanto, quem não tem sabedoria para mais: esse evento mundial que é a Volvo Ocean Race, com paragem e estaleiros em Lisboa, não é uma mera regatinha desportiva – é uma competição de elite em alto mar, é uma prova de resistência humana à volta do mundo, é um teste à força do caráter perante a inclemência dos elementos. Há quem lhe chame o Evereste da vela… Mas anualmente haverá 500 que escalam a montanha, enquanto só uns 60 completam a Volvo a cada dois anos – após oito meses em alto mar, num despojamento absoluto por semanas a fio, sem direito a privacidade nem a esse luxo extraordinário que é pousar pé em terra firme. Brincamos ou quê? (Se não fosse cá por coisas, apetecia dizer que) O Evereste é que é para meninos!


Aviso prévio à navegação: este artigo não conseguirá nunca explorar todos os ângulos de abordagem que seriam pertinentes para entendimento pleno da dimensão da Volvo Ocean Race, em tudo o que esse evento-ícone do desporto mundial envolve de audácia atlética, resistência humana e poderio tecnológico. Estas páginas têm um objetivo muito mais modesto porque se propõem apenas revelar o essencial da competição que, além de incluir Lisboa entre as 12 paragens da sua rota transoceânica, escolheu precisamente a doca de Pedrouços como o local mais indicado para acolher o estaleiro onde os oito barcos da prova serão montados. A próxima aventura começa a 22 de outubro e o premiado velejador Mark Turner, que agora assume a direção-geral da prova, faz assim o desenho: “A Volvo Ocean Race é o maior evento do mundo na modalidade da vela, por praticamente qualquer que seja o critério de avaliação. É uma regata com 45.000 milhas náuticas através do mundo – 83.000 quilómetros – e está dividida em 11 etapas, parando em 12 cidades de seis continentes. Dura oito meses e é, sem dúvida, o desafio de equipas mais duro do desporto mundial. Os skippers que lideram a tripulação no barco têm não só que desempenhar as funções extremamente complicadas associadas a essa posição, mas também que conseguir tirar o máximo rendimento da sua equipa, em que o leque de idades irá dos 20 aos 50 anos”. É uma prova a que pode aceder qualquer atleta realmente exímio na arte da vela? Sorry, mas nem por isso. “Cada equipa investe milhões de euros para participar e há riscos significativos envolvidos”, admite Mark Turner, assumindo que as exigências ao nível do patrocínio são elevadas. “Mas também há a possibilidade de se concretizarem grandes feitos e de se inspirar muita gente. Afinal, esta é a regata que todos os velejadores querem ganhar; é a regata em que muitos dos melhores velejadores do mundo passaram anos a trabalhar na tentativa de o conseguirem”.

Que ganhe o melhor homem – não a melhor máquina

A história da Volvo Ocean Race começou em 1973, então com o nome Whitebread Round the World Race e partida do Reino Unido. Contudo, muito mudou entretanto e não apenas ao nível da designação da prova, sobretudo desde que em 1998 a marca Volvo passou a financiá-la: os barcos tornaram-se mais rápidos, as equipas passaram a incluir apenas profissionais de topo e a tecnologia envolvida evoluiu até patamares incomparáveis, especialmente ao nível das telecomunicações. No caso dos barcos, uma das principais mudanças introduzidas na prova surgiu apenas na edição de 2014-2015, quando a organização decidiu que todas as equipas teriam que participar com embarcações de igual design. O objetivo foi garantir que na prestação das tripulações influiria apenas a sua perícia e não a capacidade financeira dos patrocinadores para suportar contínuos upgrades técnicos. “A regata será vencida ou perdida pelos velejadores, não pelos barcos”, ouve-se dizer na sede da prova, em Espanha.

O modelo comum então escolhido para o efeito foi o Volvo Race 65, cuja conceção coube à Farr Yacht Design, que assinara os barcos responsáveis por cinco vitórias em 11 edições consecutivas da prova. A construção, por sua vez, é agora assegurada pela italiana Persico, que em cada barco aplicará umas 36.000 horas de trabalho. A montagem das peças fabricadas nessa construtora naval faz-se depois sob supervisão rigorosa no boatyard de Lisboa, de onde saem para a água os portentos com cascos de 20 metros de comprimento, 12.500 quilos de peso, uma quilha-bolbo que pode chegar aos 5,241 quilos e uma vela principal com 420 metros quadrados – qualquer coisa como 2,5 campos de voleibol apontados ao vento.

Cada equipa investe milhões de euros para participar e há riscos significativos envolvidos

“Depois da corrida de 2014-2015, precisávamos de um local onde pudéssemos guardar os setes barcos e reequipá-los totalmente para a edição deste ano – e Lisboa era a cidade perfeita para isso, porque tem uma incrível herança marítima e excelentes condições climatéricas para a fase de testes, em junho”, recorda Mark Turner. “Descobrimos o espaço ideal no antigo mercado de peixe de Pedrouços, que transformámos no boatyard, e o que aí temos agora é um estaleiro do mais avançado que há, onde os Volvo Ocean 65 podem entrar por uma porta para serem totalmente desmantelados, verificados, pintados e remontados, antes de deslizarem por outra saída já totalmente equipados e aptos a competir”.

Testar limites

Essa aposta em monótipos one-design tem ainda outras vantagens: permite que cada barco passe a ter um custo fixo de 4,5 milhões de euros, o que é metade dos valores praticados anteriormente e torna a competição mais acessível a novos interessados; duplica a resistência de cada barco com oito bulkheads, que são as anteparas utilizadas como paredes divisórias para fortalecer a estrutura da embarcação e a tornar mais estanque; e permite que os barcos sejam construídos em torno das necessidades de media da prova, pelo que passam a incluir de origem cinco câmaras fixas, dois microfones e três lâmpadas infra-vermelhas para filmagens noturnas.

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Entre as diferentes etapas da prova, as mais longas podem chegar a implicar mais de três semanas consecutivas no mar, sempre em estado de alerta. Nesse período, os velejadores só bebem água dessalinizada, tomando banho apenas com toalhetes ou, eventualmente, à chuva.

Volvo Ocean Race 2017-2018 | INSOMNIA Magazine

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Turnos de quatro horas asseguram que há sempre velejadores a controlar o barco enquanto os colegas descansam. Mas mesmo quem dorme pode ser chamado a ajudar a qualquer momento.

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Ao alto, a vela principal dos Volvo Race 65 ocupa a superfície de 2,5 campos de voleibol. Quando não está içada, há quem se aconchegue entre a tela para conseguir o descanso possível.

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Os homens têm estado em maioria na prova, mas a edição de 2017 estabeleceu novas regras para assegurar uma maior presença feminina e garantir que as velejadores também têm oportunidade de acumular experiência de navegação em condições extremas.

Para se ter noção do que este último aspeto significa, há que considerar o impacto dos vídeos emitidos pelos barcos a partir do mar alto, quando as imagens do que aí se vive demonstram como é justificada a reputação da prova enquanto batalha contra os elementos. Aliás, não é por acaso que o processo de recrutamento da Volvo Ocean Race para os seus repórteres multimédia anuncia a função como “o emprego mais duro do jornalismo desportivo”. Os candidatos têm que cumprir uma extensa lista de requisitos profissionais, se forem pré-selecionados serão sujeitos a um boot camp que testará a sua resistência física e mental, e, se efetivamente conseguirem o lugar, vão passar oito meses no mar em condições iguais às dos velejadores, com a responsabilidade de assegurarem diariamente conteúdos escritos, fotográficos e videográficos de alta qualidade – editados a bordo numa cabine em que a cabeça lhes poderá bater no teto ao mínimo balanço e transmitidos via satélite para uma audiência de dezenas de milhões em todo o mundo, incluindo espectadores de 83 canais televisivos. Depois disto, quem adivinha o número de interessados ao posto de Onboard Reporter na edição de 2014-2015 da regata? Uns 250 em todo o mundo? 400? Pois foram mais de 9.000, ficam a saber. Principal motivação para a candidatura: o desafio de superação implícito na adrenalina de toda essa canseira que atrás se referiu.

“Esta edição vai ter um grande enfoque no digital e vamos contar mais histórias em bruto sobre a regata. Os vídeos, fotos e dados vão chegar ao ecrã dos nossos seguidores mais rápido do que nunca e isso só é possível graças ao nosso programa Onbord Reporter”, afirma Mark Turner. “Os velejadores agora também estarão autorizados a enviar updates diretamente para os seus sites e perfis nas redes sociais e, considerando que antes proibíamos totalmente o uso da internet a bordo para evitar qualquer hipótese de interferência externa, este é um passo muito significativo”.

Ainda assim, o controlo sobre as comunicações é para manter-se, também no espírito de equidade que inspirou os barcos one-design. Todas as informações sobre meteorologia são, por isso, disponibilizadas às equipas apenas pelo centro de controlo instalado desde 2010 em Alicante, onde a mais avançada tecnologia marítima e um sofisticado sistema de satélites permitem geolocalizar os barcos em contínuo e acompanhar a sua trajetória a velocidades que podem atingir os 40 nós (o que corresponde a 75 quilómetros por hora). Contactos com familiares e equipa de terra também são monitorizados, implicando uma inevitável quebra de privacidade. Poupem-se mails românticos ou chamadas de phone-sex, portanto. Alguém há-de estar a ouvir!

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A próxima Volvo Ocean Race começa a 22 de outubro em Alicante, Espanha. As equipas chegarão pouco depois a Lisboa, onde a 31 de outubro abre ao público a Race Village e a 5 de novembro se dá a partida oficial da segunda etapa.

E por falar em sexo…

Este ano esperam-se mais mulheres a disputar a Volvo Ocean Race. Equipas constituídas integralmente por 7 homens ou 11 mulheres já eram permitidas, mas agora a organização permite outras combinações a bordo, viabilizando assim equipas mistas, desde que num dos formatos pré-estabelecidos para o efeito: só 11 mulheres, 5 mulheres e 5 homens, ou 7 homens com 1 ou 2 mulheres. Isso significa que a abertura à participação feminina ainda funcionará num sistema similar ao das quotas, mas Mark Turner encara essas circunstâncias como inevitáveis dores de crescimento. “Há uma série de velejadoras que podem acrescentar valor à prova e todos concordam que a única forma de elas competirem sem necessidade de uma regra própria é ganhando experiência”, explica o diretor-geral da competição. “A mesma ética se aplica aos jovens praticantes de vela, motivo pelo qual temos a regra dos 30 [que desde 2008-2009 obriga a incluir em cada equipa pelo menos dois tripulantes com idade até 30 anos]. Como há inúmeros velejadores-homens que têm nas costas milhares de milhas no mar, inclusive no Oceano Antártico, é claro que esses estarão no topo da seleção¸ portanto agora as mulheres e os jovens precisam ganhar o mesmo tipo de experiência”.

Em cada etapa da prova, um velejador pode perder até 11 quilos

Ok. Avance-se para o projeto social. Mas a que outros testes se sujeita uma tripulação que chega a estar 25 dias consecutivos em mar alto, confinada a um espaço below-deck de apenas 25 metros quadrados? São muitos, mas listem-se apenas os mais básicos, a velocidade de cruzeiro. Pois bem: vestuário na bagagem? Pouco, que a bordo só são permitidas duas mudas de roupa, uma para tempo frio e outra para quente. Higiene? Há um WC no barco, mas contam os velejadores que há quem prefira aliviar-se diretamente para o mar. É tudo biodegradável. Banho? Só com toalhetes húmidos ou debaixo de chuva, para se evitar o desperdício de água potável. Em todo o caso, as toalhitas usadas terão sempre que regressar a terra, porque as embalagens e materiais que possam converter-se em lixo são contabilizados à partida e verificados novamente à chegada, para garantia de que nenhum resíduo é disposto no mar. Teste seguinte: descanso. É quando se puder, se se puder. Os turnos são sempre de quatro horas, inclusive os de sono, mas a qualquer momento toda a tripulação pode ser chamada ao deck para ajudar numa manobra de emergência. Ora, considerando que tripular um barco exige a execução de um conjunto de tarefas que obrigam a consideráveis demonstrações de robustez física, o desgaste de energia é tanto que, em cada etapa da prova, um velejador pode perder até 11 quilos de peso. Como é que se sobrevive a isso com sanidade física e mental suficientes para se continuar a exigir o máximo do corpo e da embarcação? No Norte de Portugal dir-se-ia que o problema ficava resolvido “com uma francesinha ou duas”. Meia resposta certa, vá! Porque se é verdade que a alimentação pode ajudar, errado é pensar-se que semelhantes iguarias seriam autorizadas num barco onde as refeições lembram mais a comida espacial dos filmes de ficção científica.

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Mark Turner, diretor-geral da Volvo Ocean Race e fundador da OC Sports, a empresa que lançou o circuito de regatas-estádio Extreme Sailing Series.

Ora vejamos: para começar, a quantidade de alimento de que a equipa necessita é calculada antes de cada etapa da prova com base na distância a percorrer; esses cálculos equacionam também o dispêndio de energia previsto, já que um velejador precisará de consumir 5.000 a 6.000 calorias por dia, o que é mais do que o dobro da média necessária para um adulto em situação não-competitiva. A questão dos líquidos é mais simples: toda a água potável a bordo é produzida pelos próprios tripulantes a partir de água do mar, com recurso a um dessalinizador, e diariamente a equipa terá que assegurar 50 litros só para beber e cozinhar. Já no que se refere a sólidos, a maioria da alimentação armazenada a bordo consiste em comida liofilizada, que, além de leve no transporte e passível de reidratar com a água tratada no barco, é rica em hidratos de carbono, proteínas e gordura. Para reposição de energia há ainda barritas, bolos revestidos a chocolate, batidos proteicos e até sopas e massas instantâneas, já que os velejadores podem precisar de até oito snacks ao longo de 24 horas. Cuidado extra opcional: até 20 comprimidos diários para manutenção de níveis vitamínicos saudáveis.

Há muito talento português na vela, tanto na costeira como na de alto-mar

Feitas as contas, valerá a pena suportar semelhante dose de esforços e restrições? O ex-tenente da Royal Navy britânica Mark Turner – que já disputou algumas das provas mais respeitadas da vela mundial, fundou o circuito de regatas-estádio Extreme Sailing Series e trocou o convite para a direção desportiva da America’s Cup pela liderança competitiva e comercial da Volvo Ocean Race – diz que sim. É verdade que a lista de participantes ainda não está fechada e que no final vencerá sempre a equipa que tiver menos pontos – porque até nisso a regata é especial, com um sistema de pontuação em que o vencedor de cada etapa ganha apenas 1 ponto, o segundo classificado acumula 2 e assim por diante. Mas certo é também que, entre diferentes gerações de velejadores, diferentes mindsets culturais e até diferentes sensibilidades desportivas, parece ser unânime a opinião de que os protagonistas dessa aventura pertencem a uma raça distinta de gente, disposta a tentar superar o “Evereste da vela” sabendo que no cume da prova não haverá prémio financeiro algum.

Não há portugueses envolvidos neste desafio, note-se. Longe vai o tempo e a audácia das Descobertas, que hoje os marinheiros lusos não podem procurar fortuna além-mar se é de uma fortuna em terra que precisam só para levantar âncora. Mas também aí Mark Turner vê novos mundos para dar ao mundo: “Há muito talento português na vela, tanto na costeira como na de alto-mar, e era fantástico que se pudesse ativar uma equipa de Portugal. Aliás, há gente a tentar fazer com que isso aconteça – porque a realidade é que o ondular da bandeira portuguesa num dos barcos conferiria à prova uma emoção totalmente diferente”.


Nota do Editor:

Este artigo foi originalmente publicado em abril de 2017, na INSOMNIA Magazine #4. Entretanto, as previsões de Mark Turner confirmaram-se e a Volvo Ocean Race 2017/2018 conta com três portugueses em prova: Bernando Freitas e Frederico de Melo integram desde agosto a equipa “Turn the Tide on Plastic”, liderada pela skipper britânica Dee Caffari, e António Fontes entrou em setembro para a tripulação da SHK Scallywag, que tem no leme o australiano David Witt.

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